05/12/2025
O investimento público deve ser avaliado não apenas pelo custo, mas pelo impacto líquido que gera — ambiental, social e económico.
O Programa e-lar promovido pelo Ministério do Ambiente e Energia, recentemente reforçado com cerca de 61 milhões de euros, tem como objetivo substituir equipamentos a gás por alternativas elétricas mais eficientes, contribuindo para a redução do consumo energético e das emissões no setor residencial.
Com base nos dados disponíveis, um agregado típico que substitui gás natural por equipamentos elétricos pode reduzir aproximadamente 0,4 toneladas de CO₂ por ano.
Num universo potencial de 80 mil lares apoiados, isto representa cerca de 35 mil toneladas de CO₂ evitadas anualmente.
É um contributo relevante e coerente com os objetivos de descarbonização gradual do setor doméstico.
Contudo, se compararmos este impacto com o potencial de redução de emissões associadas aos incêndios rurais, a escala é diferente.
Os incêndios florestais em Portugal têm registado emissões anuais muito variáveis, situando-se historicamente entre 0,2 e mais de 5 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, dependendo da severidade da época e da área ardida.
A literatura científica demonstra que o reforço da capacidade de ataque inicial — incluindo meios aéreos dedicados como o Fire Boss — aumenta significativamente a probabilidade de contenção de incêndios nas primeiras horas. A redução da área ardida traduz-se diretamente em menores emissões de carbono e menores perdas ambientais, económicas e sociais.
Se o mesmo montante de 61 milhões de euros fosse aplicado na aquisição de uma frota alargada de aeronaves de ataque inicial, mesmo uma redução conservadora de 10% da área ardida anual poderia evitar aproximadamente 100 mil toneladas de CO₂ por ano — uma ordem de magnitude superior ao impacto estimado do E-Lar.
Mesmo considerando as emissões associadas ao próprio funcionamento dos meios aéreos, o balanço líquido continuaria claramente positivo.
O objetivo desta comparação não é opor medidas de eficiência energética a políticas de proteção civil. Ambas são necessárias.
O ponto central é que os critérios de priorização e avaliação de impacto devem integrar de forma mais explícita a dimensão climática e o retorno ambiental por euro investido.
Portugal enfrenta simultaneamente desafios na habitação, na energia e no risco climático. O debate sobre políticas públicas beneficiaria de uma análise integrada que permita maximizar o impacto social e ambiental de cada investimento.