30/05/2021
Geografia?! Para que serve a Geografia?
Sempre que sou questionado sobre o porquê de minha escolha profissional, lembro‑me do instigante diálogo travado entre o pequeno príncipe e o geógrafo na clássica obra de Antoine de Saint‑Exupéry:
– Que livro é esse? – perguntou‑lhe o principezinho.
– Que faz o senhor aqui?
– Sou geógrafo – respondeu o velho.
– Que é um geógrafo? – perguntou o principezinho.
– É um sábio que sabe onde se encontram os mares, os rios, as cidades, as montanhas, os desertos.
– É bem interessante – disse o principezinho. – Eis, afinal, uma verdadeira profissão!
No meu imaginário infantil – quando tive contato com o livro – e, muito provavelmente, no pensamento da maioria das pessoas, esta é a definição do trabalho do geógrafo, que, como diz a própria etimologia da palavra, trata da descrição da Terra ou do estudo da localização de mares, rios, cidades, montanhas e desertos.
Se por um lado não podemos desprezar essa definição tão arraigada, por outro é importante mencionar o quanto as discussões das últimas décadas trouxeram contribuições para a Geografia, abordando os seus conceitos, como lugar, região, território, paisagem, e, principalmente, seu objeto de estudo maior, o espaço geográfico.
Além, portanto, de simplesmente enumerar rios e montanhas, a Geografia envolve um conjunto muito maior de saberes, dos quais o ensino representa uma importante parte, mas não a única. Outras funções são exercidas em universidades, institutos de pesquisa, órgãos de gestão e planejamento – públicos e privados –, empresas de consultoria, organizações não governamentais e em diferentes agências, de instâncias locais a supranacionais.
Nos últimos anos, por exemplo, muitos geógrafos desenvolveram pesquisas que vão de estudos de distribuição espacial de doenças, que direcionam políticas públicas na área da saúde, passando por avaliações de impacto ambiental, por meio do sensoriamento remoto, até chegar às pesquisas que procuram contribuir para a solução de problemas urbanos e para o planejamento regional.
Além da carreira acadêmica, ao bacharel, mestre e doutor é permitido atuar como geógrafo propriamente dito, uma profissão regulamentada no Brasil desde 1979 e certificada pelo Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea).
De volta ao livro de Saint‑Exupéry, mais adiante no diálogo, o personagem geógrafo lembra o pequeno príncipe da total falta de exploradores para desenvolver pesquisas e lecionar. Talvez aí, um importante alento àqueles que buscam, nesta ciência do espaço, o seu lugar ao sol.
Márcio Vitiello é autor de livros didáticos e professor de Metodologia de Ensino de Geografia na Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL), em Minas Gerais.