08/03/2020
CARTA ABERTA:
A Rede de Economia Solidária e Feminista é fruto da construção coletiva de mulheres e da experiência de seus empreendimentos em diversos segmentos produtivos, agregados em Redes Locais, que articulam cerca de 300 empreendimentos em 11 estados e nas 5 regiões do país. A diversidade cultural e produtiva bem representa o trabalho destas mulheres que, com criatividade e determinação, enfrentam a dureza da vida na busca de sustento para si e suas famílias. Já temos uma história de sete anos, tecida por trocas e intercâmbios diversos, pelo aprendizado coletivo da produção e do comércio justo e sustentável, da autogestão solidária, da participação social e da luta por políticas públicas.
Ao longo da história deste país e das nossas vidas, temos sido as responsáveis pela reprodução e pelo cuidado com filhos, famílias e comunidade. Um trabalho essencial mas invisível, não valorizado e de responsabilidade das mulheres que, com isso, acumulam duas ou três jornadas de trabalho numa situação de desigualdade histórica. Um trabalho ainda pouco assumido pelos homens e pelas políticas públicas, mas fundamental para a sociedade e que precisamos compartilhar como responsabilidade social de todos.
Vivemos com muita indignação o que se passa em nosso país, com a perda de direitos, com o crescimento do machismo, do racismo, da LGBT fobia, do preconceito e da violência contra as mulheres e demais segmentos sociais discriminados, com a juventude sendo assassinada e sem perspectiva de um futuro, com corte em políticas sociais tão essenciais para a vida da grande maioria do povo, com o envenenamento por agrotóxicos, com a destruição da natureza, da democracia e da vida, com a diminuição drástica da responsabilidade do Estado com as reais necessidades do povo brasileiro e com nossas riquezas sendo saqueadas pelos interesses dos grandes capitalistas internacionais.
Mas somos mulheres de luta e queremos uma vida melhor para nós, nossas famílias, nossa comunidade e nosso país. Estamos em março, mês em que, historicamente, as mulheres se manifestam para denunciar a situação de desigualdade, falar de suas lutas e conquistas, e trazer propostas para a construção do bem viver de todas e todos. E aqui estamos nós, como parte deste movimento maior, trazendo as propostas da RESF e da nossa Rede Local para apresentar para instituições e autoridades públicas, organizações e movimentos sociais, comunidade em geral. O objetivo é construirmos parcerias diversas para o fortalecimento de nossa Rede e das possibilidades de trabalho para as mulheres na economia solidária, fortalecendo assim a economia local e contribuindo com melhores condições de vida para nossas comunidades.
Para isso propomos:
💜 Acesso às compras públicas para produtos e serviços da economia solidária e feminista;
Capacitação técnica para qualificação dos produtos e dos processos produtivos;
💜Apoio à logística e espaços de comercialização;
💜Estratégias para a incorporação de mulheres e jovens na economia solidária a partir das políticas sociais e de desenvolvimento do município;
💜Estratégias de atendimento e cuidado com as crianças, através de políticas sociais de creches e escolas infantis, e/ou outras formas comunitárias de cuidar;
💜Integração das políticas públicas para o enfrentamento à violência contra as mulheres;
💜Legislação específica de fomento à economia solidária e feminista, no âmbito da vocação econômica do município, com a preocupação de fortalecimento da economia local, com a estruturação de um fundo para investimento na área e a criação de um Conselho Municipal de Economia Solidária e Feminista;
💜Constituição de Linhas de Crédito popular, solidário e desburocratizado para investimentos em infraestrutura, equipamentos e capital de giro;
💜Que a educação formal contemple, em seu currículo, conteúdo regular de Economia Solidária e Feminista, articulando com estratégias e ações solidárias e sustentáveis;
Para a efetivação destas propostas, como Rede, nos dispomos a participar ativamente como parte construtora destas políticas e ações públicas, bem como socializar nossa experiência na economia solidária e feminista com outras mulheres e participar da realização de ações comunitárias que possamos acordar para a implantação das mesmas.
Por fim, como mulheres da economia solidária e feminista, propomos e construímos outras formas de organizar a economia, tendo como centro o cuidado e a sustentabilidade da vida. E reafirmamos os valores de igualdade, liberdade, justiça, paz e solidariedade, como pilares da sociedade que lutamos para construir.