08/01/2026
O Fugitivo Trapalhão
O homem retratado nas fotos é Silvinei Vasques, administrador e ex-diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal (PRF), cargo máximo da instituição, que ocupou entre abril de 2021 e dezembro de 2022. A PRF, assim como o Corpo de Bombeiros, é historicamente uma das corporações de maior prestígio e confiança junto à população brasileira, o que torna ainda mais grave o uso indevido de sua estrutura para fins políticos.
No segundo turno das eleições presidenciais de 2022, Vasques foi acusado de instrumentalizar a PRF para dificultar o deslocamento de eleitores, especialmente daqueles considerados desfavoráveis ao então presidente Bolsonaro. As ordens incluíam bloqueios em rodovias e blitzes em pontos estratégicos do país. Para o Ministério Público e o Supremo Tribunal Federal (STF), tratou-se de uma tentativa deliberada de interferência no processo eleitoral, violando frontalmente os limites institucionais da corporação.
Enquanto aguardava a formalização da sentença em prisão domiciliar, com tornozeleira eletrônica, em Santa Catarina, Vasques decidiu fugir. Rompeu a tornozeleira, alugou um carro e iniciou uma viagem improvisada, levando consigo um cachorro da raça pitbull, além de tapetes higiênicos e grande quantidade de ração, numa tentativa rudimentar de simular uma mudança prolongada. O trajeto terminou no Paraguai, evidenciando o grau de improviso e desespero da fuga.
Na madrugada de 26 de dezembro de 2025, foi preso no aeroporto de Assunção, quando tentava embarcar para El Salvador usando um passaporte paraguaio falso. Para completar o episódio, carregava uma carta em espanhol alegando tratar um câncer, afirmando não conseguir falar ou compreender instruções orais, justificativa considerada inconsistente pelas autoridades paraguaias. Uma encenação frágil, sem pé nem cabeça.
Após a detenção, Silvinei Vasques foi entregue à Polícia Federal brasileira na fronteira entre Ciudad del Este e Foz do Iguaçu e, posteriormente, transferido para Brasília, onde passou a cumprir a pena determinada pelo STF.
O caso teve ampla repercussão nacional e reacendeu debates sobre a responsabilização e a preservação das instituições democráticas. E, como costuma acontecer, o mundo dá voltas: hoje, Silvinei Vasques está preso em Brasília, na penitenciária conhecida como Papudinha, dividindo cela com Anderson Torres, ex-ministro da Justiça, seu antigo superior hierárquico e apontado como um dos responsáveis pelas ordens que levaram ao bloqueio das estradas.
Como toda história mal contada, ficam lacunas. A tornozeleira eletrônica foi encontrada em um banheiro em Assunção, e até hoje não há notícias do pitbull que acompanhou a fuga. No fim das contas, o único a sair no lucro parece ter sido o dono do pet shop, que provavelmente nunca havia vendido tantos tapetes higiênicos e tanta ração a um único cliente.