03/06/2026
A máquina da diálise apita às 6h30. Três vezes por semana, quatro horas por sessão. O corpo tem que permanecer imóvel por causa do Catete. O sangue sai, passa pelo filtro, volta limpo. Para muitos, são horas de espera. Para Laiane Silva, são horas de criação.
Enquanto o corpo depende da máquina para fazer o que os rins já não fazem, as mãos da Laiane fazem o que a alma pede: desenhar. A bandeja lateral da poltrona vira mesa. O caderno de capa gasta se equilibra no colo. O lápis 2B dança no papel, firme, mesmo com o acesso no braço.
A rotina não apaga a artista
Ser paciente renal crônica é conviver com limites. Líquido controlado no copo medidor. Sódio contado no prato. Cansaço que chega do nada. Laiane conhece cada um deles. Mas decidiu que a doença ia ocupar a agenda, não a identidade.
“Eu não sou só a paciente da sala 3, da poltrona 8”, ela fala, ajeitando o papel. “Eu sou a Laiane que desenha. A diálise cuida do meu corpo. O desenho cuida do resto.”
Nos dias sem diálise, ela estuda anatomia para melhorar os retratos, testa nanquim, entrega encomendas de desenhos realistas. Nos dias de sessão, o material vai na mochila junto com o cobertor. As técnicas de enfermagem já perguntam: “O que vai nascer hoje, Lai?”. Os outros pacientes viram inspiração. O senhor do lado virou esboço de avô com olhar cansado. A menina nova ganhou um desenho de flor no caderno. A sala branca ganhou cor.
Desenhar é a outra forma de filtrar
O barulho constante da máquina virou parte do processo criativo. A pausa obrigatória virou ateliê. Laiane não esconde as marcas no braço. Pelo contrário: elas aparecem nos autorretratos. O cateter vira linha, a fístula vira textura, a cicatriz vira sombra. A dor não é ignorada. É transformada em traço.Desenhar é a outra forma de filtrar
Muito além do prontuário
A história da Laiane Silva é sobre isso: tratamento é vírgula, não ponto final. Entre uma diálise e outra tem vida.