23/07/2026
EXISTIU UM TEMPO EM QUE VIAJAR DE BARCO ERA O MELHOR NEGÓCIO PARA UM MARINHEIRO
Quem navegou nos anos 80 e 90 provavelmente vai se lembrar dessa época.
Quando o patrão dizia:
— Vamos levar o barco para Angra dos Reis.
A maioria dos marinheiros queria ser escalada para a viagem.
Muita gente hoje pode pensar que era apenas pelo passeio, experiência ou pelas paisagens. Claro que isso também contava. Mas existia outro motivo que fazia toda a diferença.
Naquela época, além do salário, a tripulação recebia uma diária para cobrir as despesas da viagem.
Fazendo uma correção aproximada pela inflação, aqueles R$ 50 por dia equivaleriam hoje a algo entre R$ 250 e R$ 350.
Era dinheiro para pagar café, almoço, jantar e as despesas da viagem.
O melhor de tudo era que o salário ficava praticamente inteiro para a família.
Enquanto eu estava navegando, minha esposa recebia o salário em casa, e eu me mantinha durante a viagem com as diárias.
Para quem estava construindo uma família, isso fazia uma diferença enorme.
Viajar deixava de ser apenas uma obrigação profissional.
Também ajudava a melhorar a renda da casa.
Foi em uma dessas viagens que aconteceu uma das histórias mais engraçadas da minha carreira.
Meu aniversário é dia 29 de fevereiro.
Como essa data só aparece de quatro em quatro anos, quando ela chegava, sempre rendia uma comemoração.
Estávamos voltando de Angra dos Reis para Florianópolis.
No caminho, fizemos uma parada no Guarujá, em São Paulo.
Meu irmão olhou para mim e disse:
— Hoje quem paga sou eu. Vamos comemorar teu aniversário.
Entramos em uma choperia.
Conversamos sobre barcos, motores, a viagem que estávamos terminando e demos muitas risadas.
Na hora de fechar a conta veio a surpresa.
Foram consumidos 52 chopes.
Quando pedimos a nota fiscal para a prestação de contas da viagem, o atendente explicou que o sistema só emitia exatamente o que havia sido consumido.
Resultado:
A nota saiu escrita bem grande:
52 CHOPES.
Dias depois, quando meu irmão foi prestar contas da viagem, o patrão começou a conferir as despesas.
Ao chegar naquela nota, levantou os olhos e perguntou:
— Cinquenta e dois chopes?
Meu irmão respondeu com a maior tranquilidade:
— Era o aniversário do Ney. Além disso, ele foi nosso guia durante toda a temporada em Angra dos Reis. Se o senhor tivesse contratado um guia para fazer esse trabalho, teria gastado muito mais do que isso.
O patrão ficou alguns segundos olhando para a nota.
Depois sorriu e respondeu:
— Então está certo. Pode lançar.
Todos caíram na risada.
Até hoje, quando lembro dessa história, eu sorrio.
Não pelos 52 chopes.
Mas porque ela representa uma época em que existia muita confiança entre patrões e tripulações. As viagens eram longas, a responsabilidade era enorme e, no meio de tudo isso, também havia espaço para boas amizades e histórias que ficaram para sempre na memória.
Naquela época, viajar de barco não significava apenas cumprir uma missão.
Significava aprender, conhecer lugares, criar amizades e, muitas vezes, voltar para casa sabendo que o salário tinha ficado inteiro para sustentar a família.
Tenho muito orgulho de ter vivido essa fase da náutica brasileira.
São histórias simples, mas que ajudam a contar um pedaço da nossa profissão e que merecem ser lembradas.
Agora quero ouvir vocês.
Quem aqui navegou nos anos 80 ou 90? Como funcionavam as diárias na empresa onde vocês trabalhavam? Qual foi a história mais engraçada que viveram durante uma viagem?
Vamos registrar essas lembranças.
Elas fazem parte da história da náutica brasileira.
Ney Broker
38 anos de experiência no mercado náutico brasileiro.