14/05/2026
O artigo “A bolha elétrica explodiu”, publicado em 25 de junho de 2025 no Valor, assinado por um ex-diretor da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), oferece uma narrativa preocupante e, por vezes, imprecisa sobre a expansão das fontes renováveis e da Geração Distribuída (GD) no Brasil. Embora traga dados relevantes, o texto peca por negligenciar aspectos estruturais cruciais do setor elétrico brasileiro: a falta de planejamento sistêmico e a ausência de infraestrutura de transmissão que há anos trava o aproveitamento do nosso potencial energético. A energia está onde não há demanda — e vice-versa. A crítica à GD ignora um ponto central: o Brasil tem, sim, capacidade instalada elevada, mas não nos pontos onde a nova economia demanda energia. Casos emblemáticos são os projetos de hidrogênio verde, que somam mais de 37 GW de demanda futura, e os data centers de IA, com projeções superiores a 20 GW — apenas no Nordeste. No entanto, não há linhas de transmissão nem subestações adequadas nesses polos de desenvolvimento. A construção dessa infraestrutura pode levar de 5 a 7 anos, como estimado por especialistas do setor.
Portanto, não é a Geração Distribuída que causou desequilíbrios no sistema, mas sim a incapacidade de antecipar a transformação estrutural em curso na matriz energética mundial, que hoje é cada vez mais distribuída, digitalizada e descarbonizada. A Geração Distribuída deve ser vista como solução e não como vilã. A GD não é canibalismo. É eficiência energética descentralizada, capaz de evitar perdas em longas linhas de transmissão, reduzir pressão sobre a rede e empoderar consumidores. A acusação de que a GD beneficia apenas consumidores ricos é reducionista. O problema está na ausência de uma política justa de subsídios cruzados, algo que também ocorre com setores como o agronegócio, a indústria do alumínio e outros eletrointensivos, que há anos se beneficiam de incentivos vultosos sem a mesma cobrança pública.
Aliás, o próprio estudo do Inesc indica que, em 2021, o Brasil destinou mais de R$ 118 bilhões em subsídios aos combustíveis fósseis, enquanto o debate sobre incentivos às renováveis é tratado com indignação seletiva. A crítica ao investimento em renováveis ignora o mercado internacional. Ignorar o papel do Brasil como player global no mercado de hidrogênio verde é míope. A Europa, por exemplo, estima importar 10 milhões de toneladas de H₂V até 2030, e o Brasil, com abundância de recursos solares, eólicos e hídricos, é um candidato natural a liderar esse mercado. Questionar os investimentos em eólicas offshore e fotovoltaicas sem considerar esse contexto é reduzir a geopolítica da transição energética a um balanço contábil de curto prazo.
O problema é de rede, não de geração. Ou seja, é incorreto afirmar que há energia sobrando por culpa das renováveis. O que há é energia mal distribuída, mal conectada e mal planejada. A GD e os grandes projetos renováveis não foram acompanhados de um Plano Nacional de Expansão da Transmissão (PNET) capaz de integrar efetivamente essas novas fontes ao SIN. A solução não é travar a expansão da GD ou das renováveis, mas sim modernizar a governança do setor elétrico e garantir investimentos em infraestrutura de transmissão e flexibilidade operacional, incluindo armazenamento, hidrogênio e interconexões inteligentes. Não existe uma bolha, mas sim atraso. A “bolha elétrica” a que se refere o artigo não é uma bolha de geração, mas sim de visões ultrapassadas sobre o setor elétrico, que insistem em modelos centralizados e fósseis num mundo que já opera em plataformas integradas, distribuídas e limpas.
O Brasil não pode se dar ao luxo de renunciar ao seu maior diferencial competitivo: a capacidade de produzir energia renovável em escala e com baixo custo. Mas para isso, é preciso fazer o dever de casa: planejar melhor, investir onde importa e parar de buscar culpados nos setores que ousam inovar.
Luiz Piauhylino Filho é secretário de Hidrogênio Verde do Instituto Nacional de Energia Limpa.
A energia no país está onde não há demanda — e vice-versa